QUEM ESCUTA O SUJEITO POR TRÁS DO SAGRADO?

A ética do cuidado e a urgência da saúde mental nos terreiros

Por: Paulo César Ferreira de Oliveira - Sociólogo, psicanalista e colaborador voluntário do ICOOPS

A recente exposição midiática sobre o esgotamento mental de líderes religiosos acende um debate que o ICOOPS (Instituto de Cooperativismo e Projetos Sociais) considera central e inadiável: a urgência de uma ética do cuidado para quem sustenta a escuta das angústias humanas. Nas religiões de matriz africana, onde o corpo, o espírito e a comunidade são indissociáveis, a "estafa do sagrado" não é apenas um cansaço físico; é uma ferida na rede que mantém viva a nossa ancestralidade e cidadania.

Na psicanálise, entendemos que o líder (seja ele um Pai de Santo, uma Mãe de Santo ou um gestor social) é frequentemente colocado no lugar do Sujeito Suposto Saber. Dele, a comunidade espera a cura, a direção e uma força inabalável. No entanto, a ética do cuidado nos convida a inverter essa lógica: cuidar não é um ato de um "forte" em direção a um "fraco", mas o reconhecimento de nossa interdependência.

A vulnerabilidade é a nossa condição comum. Quando uma liderança nega sua própria angústia para manter uma imagem de onipotência, ela rompe com a ética do cuidado de si. O projeto Laços de Escuta nasce para lembrar que quem cuida também habita o lugar do desamparo. Sem o reconhecimento desse limite, o acolhimento vira um fardo burocrático que adoece o zelador e fragiliza o axé.

O terreiro é, historicamente, uma tecnologia ancestral de resistência. Mas, para que essa engrenagem continue girando, é preciso que haja o que chamamos na clínica de "holding" (sustentação). Se o líder é o suporte para seus filhos, quem oferece o suporte para o líder?

O ICOOPS, em conjunto com o coletivo CidadaniAxé, propõe que o cuidado não seja uma via de mão única. Introduzimos a escuta psicanalítica como um dispositivo de proteção ética. Ao oferecer um espaço onde o líder pode falar de suas "agruguras" sem o peso da paramenta ou do cargo, estamos devolvendo a ele o direito à própria subjetividade. É permitir que o desejo do sujeito não seja sufocado pela demanda infinita do Outro.

A abrangência do projeto Laços de Escuta é, portanto, um ato de reparação e vigor. Em um mundo que exige produtividade e resiliência constante, reivindicar o espaço para a dor de quem cuida é um ato revolucionário. É passar de uma lógica de sacrifício para uma lógica de preservação da vida.

Nós nos acostumamos a consumir o cuidado como se ele fosse um recurso infinito, esquecendo que o "estoque" de escuta de um líder depende da sua própria saúde psíquica. A ética do cuidado nos ensina que ninguém cuida sozinho.

Se o axé é compartilhamento, por que o sofrimento do líder ainda é solitário? Até quando vamos aplaudir a força de quem nos acolhe, enquanto ignoramos o silêncio de quem desaba por dentro ao fechar as portas do terreiro? Cuidar de quem cuida não é apenas uma gentileza; é o que garante que a nossa corrente de resistência continue viva e pulsante.