Axé é cuidado, não é medo: O terreiro como lugar de respeito

Por: Paulo César Ferreira de Oliveira - Sociólogo, psicanalista e colaborador voluntário do ICOOPS e CidadaniAxé.

Todo mundo que entra para a religião de matriz africana está em busca de uma coisa: acolhimento. O terreiro é para ser nossa casa, o colo do nosso Orixá, o lugar onde a gente busca força para vencer as batalhas da vida. Mas, infelizmente, temos recebido denúncias que deixam qualquer um de coração apertado: pessoas que se dizem "pais e mães de santo" usando o nome do sagrado para maltratar, humilhar e perseguir filhos de santo. Isso não é religião, isso é maldade, perversidade.

Como saber se o rigor virou violência?

No candomblé e na umbanda, sabemos que existe disciplina. Tem a hora de calar, a hora de aprender e o respeito aos mais velhos. Mas disciplina é diferente de tortura. Fique atento se no seu terreiro acontece isso:

  • Humilhação pública: O zelador xinga ou faz você passar vergonha para "quebrar seu orgulho".

  • Ameaças espirituais: Dizem que se você sair da casa, o Orixá vai te castigar. Lembre-se: Orixá é pai e mãe, não é carrasco.

  • Castigos físicos: Nada justifica bater em um filho ou deixá-lo passar por fome e privações extremas em nome de "preceito".

  • Assédio e Exploração: Cobranças financeiras abusivas ou toques e conversas que te deixem desconfortável sexualmente.

O olhar da ciência: Por que o abuso acontece?

Sob as lentes da Sociologia e da Psicanálise, o que vemos em terreiros onde a violência impera é uma perversão das estruturas de autoridade. Sociologicamente, o terreiro é um espaço de resistência e hierarquia; porém, quando o líder usa o "segredo do culto" para isolar o grupo, ele cria um sistema fechado onde o abuso se normaliza e o silêncio se torna regra de sobrevivência.

Psicanaliticamente, o que ocorre é a manifestação de um narcisismo patológico: o líder religioso projeta no fiel suas próprias frustrações e desejos de onipotência, exigindo uma submissão total que anula a subjetividade do outro. Nesse cenário, o "sagrado" é sequestrado para servir de máscara a uma personalidade perversa, transformando o que deveria ser um processo de cura em um ciclo de trauma e dependência psíquica.

Denunciar essa dinâmica não é atacar a fé, mas sim expor o mecanismo de poder que adoece o coletivo em nome de um ego individual.

O Compromisso do CidadaniAxé

O CidadaniAxé defende que o axé só existe de verdade onde tem paz. Valorizamos a cultura de paz inter-religiosa, que começa combatendo toda forma de violência, venha ela de fora ou de dentro dos nossos terreiros.

Zelar pelo Orixá é zelar pelo ser humano. Não existe "bom fundamento" que fira os Direitos Humanos. Quem trata mal um filho de santo está, na verdade, expulsando o axé daquela casa. Nós defendemos uma religião que liberta, que ensina e que garante o respeito mútuo.

Dicas de utilidade pública: Como agir?

  1. Não aceite o medo: O medo é a ferramenta de quem não tem axé real. O seu Orixá mora em você, não na mão de quem te bate.

  2. O santo é seu: Ninguém tem o poder de "tomar" o seu santo ou "fechar" seus caminhos por vingança.

  3. Procure ajuda: Se sofreu violência física ou abuso, isso é crime. Procure amigos de confiança, advogados ou as autoridades competentes.

  4. Valorize o bom axé: Procure casas que ensinam com paciência e que respeitam sua saúde mental e sua vida pessoal.

O verdadeiro axé traz alegria e vida. A estupidez não tem axé.